Chile 2014

Em 2010 quando estive pela primeira vez no Chile, tivemos o imprevisto de ocorrer na mesma data um grande terremoto, atingindo quase todo o país.

Na ocasião tivemos que cortar a viagem pela metade devido a falta de combustível nas estradas e demais condições de infraestrutura que ficaram bem precárias. Então na ocasião optamos em fazer apenas a parte do Deserto do Atacama, indo até o Pacifico e na Mão do Deserto.  Foi uma grande viagem, a nossa primeira internacional em uma motocicleta.  Ficou na lembrança, principalmente pelo grupo em que estávamos.

Agora então era hora de voltar e fazer o Chile novamente, porem dessa vez a volta completa, ou seja, entrando pelas Cordilheiras no túnel de São Cristóvão e voltando pelo Deserto. E porque nessa ordem?

Fazendo dessa forma você desce os Caracoles Chilenos no trecho entre Mendoza e Santiago e idem os Caracoles Argentinos no Deserto.  Isso permite uma visão muito mais privilegiada dessas duas partes importantíssimas da viagem.  Pense nisso quando for fazer o mesmo trajeto.

Apesar de grande parte dos integrantes serem diferentes, como em 2010 marcamos em Foz do Iguaçu o encontro com toda a turma que ia. La nos reunimos com os amigos Paulo Rocha, Clayton e Mariane que vinham de Cuiabá e eu, a Maga e o casal Sidney e Marina que saímos a partir de Curitiba.

Entramos na Argentina pela cidade de Puerto Iguazu e de lá seguimos para Corrientes.  Um percurso de 640 km rodados no dia, em um trecho que lembra muito o sul do Brasil.  Não ha grande cidades, apenas Posadas e a própria Corrientes são os municípios de porte médio, com um pouco mais de estrutura.  O trecho é tranquilo e basicamente muitas fazendas ao longo do caminho.

Chegando a Corrientes pela Ruta 12, uma dica importante.  Essa cidade é a segunda na Argentina com o maior índice de reclamações dos motociclistas brasileiros quanto à corrupção dos guardas argentinos. Ocorre que a Ruta 16 que corta a cidade e vai para o Atacama, é proibido trafegar com motos. No entanto se você ficar parado às margens da rodovia ira perceber que essa lei "parece" ser apenas para os estrangeiros, uma vez que as motos locais transitam normalmente e ninguém fala nada. Os brasileiros desaviados acabam entrando na onda e são surpreendidos pelos guardas e pesadamente multados.  Não adianta alegar nada, terá que pagar a vista e na hora. E a reclamação é que o valor da multa "é de acordo com a cara do freguês", ou seja, não é cobrada legalmente, existindo um abuso. 

Passei quatro vezes por esse local e nunca tive esse problema, mas tomo a seguinte precaução. Ao chegar a Corriente, entro no primeiro acesso a cidade, tem um posto de combustíveis nesse mesmo acesso, então não tem como errar. La já abasteço e me dirijo por essa mesma rua até o centro da cidade, onde costumo pernoitar.  Um pouco antes de amanhecer, saio utilizando a avenida que beira i grande rio que corta a cidade e vou seguindo a mesma ate chegar à lateral da ponte.  La eu tomo a alça de acesso a rodovia e passo por cima da ponte seguindo caminho.  Existe um segundo posto de guardas nessa saída, mas ai não tem o que eles "inventarem" e saindo bem cedo geralmente eles ainda não estão na ativa. Retornando para o Brasil é a mesma coisa, é só fazer esse mesmo trecho ao contrário. Nessa cidade pernoitamos no hotel Guarani. Um excelente hotel e podemos até dizer luxuoso depois da reforma.  Em 2010 ele estava bem ruim, mas nesse ano estava excelente.

No segundo dia tivemos um trecho bem mais longo, foram 907 km até Córdova na Argentina.  Além de longo, é um trecho feito na maioria pelo Chaco Argentino, não havendo nenhum atrativo.  Na primeira parte é a Ruta 11, de pista simples mas sem movimento. Passa-se ao lado de Santa Fé, região muito quente, temperatura chega fácil acima de 40 graus.  A rodovia que segue depois para Cordoba é a Ruta 19, com boa parte duplicada. 

Cordova é uma cidade grande e puramente industrial, onde estão as grandes fabricas argentinas, inclusive a indústria automobilística. É exatamente no meio do país.

Os hotéis são bastante antigos, por isso pesquise bem antes de escolher. Utilizamos o hotel King David, recomendo.

Nosso terceiro dia também se inicia cedo, porque a partir desse trecho começaremos a ver diversos pontos atrativos/turísticos.

Nosso destino será Mendoza a 620 km de distancia, porém o percurso será feitos pelas Altas Cumbres que é uma rota alternativa, passando por lugares fantásticos.

Esse trajeto é feito pelas Rutas 20, 14, 34, passando por lugares como Villa Carlos Paz e Mina Clarevo, saindo em San Luis. Existe a possibilidade de continuar pela Ruta 20 sem passar por San Luis, mas atenção, essa região é desabitada e sem nenhum recurso.

Uma dica importante se estiver chovendo não recomendo.  Ocorre que no dia pegamos uma chuva muito forte, com ventos acima de 100 km/h e por ser uma serra que a rodovia beira um precipício, a situação foi bastante perigosa.  Confesso que foi a situação de maior apuro com mau tempo que passei em minhas viagens de moto.

O lugar vale a pena ser conhecido, mas fique atento ao tempo. O trajeto normal, não passando por esse lugar é geralmente a Ruta 36, depois a 8 e a 7.

Como a passagem por essa região serrana é bastante demorado (principalmente pela chuva que pegamos), chegamos a Mendoza já a noite e acabamos tendo uma grande surpresa.

Sem sabermos estava para começar a maior festa do vinho da Argentina e com isso não existiam hotéis disponíveis. Por horas ficando rodando por toda a cidade, consultando internet, sites de buscas de hotéis e nada.

Até que encontramos um hotel, porem era provavelmente um dos mais luxuosos da cidade e ai vocês imaginam que não foi barato. No entanto vale ressaltar que os atendentes do hotel resolveram nos fazer um brinde, cobrando uma tarifa a menor e acabou não saindo tão caro.  O único problema era que a única disponibilidade seria para apenas aquela noite, assim nosso projeto de ficar pelo menos uns 2 dias descansando em Mendoza foi adiado e, no dia seguinte já sairíamos para o próximo trecho. O hotel chama-se Diplomatic e ele fica voltado para as Cordilheiras, então olhar pela manha na janela, é ter uma “injeção de emoção e motivação” para seguir viagem.

Então no dia seguinte após um belo café da manha (estilo bons hotéis brasileiros), saímos para o trajeto mais belo da viagem.

Seriam apenas 400 km até Vina Del Mar, mas teríamos uma alfandega para fazer e essa já famosa pela demora devido ao forte movimento de veículos na região.

Porem para nossa surpresa o tempo não foi tão longo.  Agora a saída e entrada são feita apenas em um único local e com isso se ganha muito tempo. O movimento para subir as Cordilheiras também estava calmo, diferente do movimento contrario que tinha um transito maior.

Nosso percurso foi feito usando quase todo o dia, curtimos cada curva, cada montanha gelada, cada túnel, enfim, cada metro percorrido.  São muitos atrativos, muitos lugares para estacionar e tirar muitas fotos. A descida doa Caracoles Chilenos uma atração a parte. Vale lembrar que em alguns trechos chegamos pertos de 4 mil metros de altura, assim existe o efeito da altitude.

Escolhemos ficar em Vina Del Mar por ser muito mais bonita e agradável que Valparaiso.  Essa ultima é uma cidade portuária e nada bonita. Vina Del Mar por sua vez é muito bela, com muitos atrativos.  Passamos duas noites na cidade e usamos e recomendo o hotel Marina, próximo a praça do relógio.

Uma dica.  Logo atrás do hotel existe uma rua estilo calçadão com vários restaurantes.  Não são as melhores opções.  Se você quiser alto bem melhor e variado, vá até a Avenida San Martin, onde ira encontrar tanto o Cassino como uma rua repleta de restaurantes com varias opções diferentes.  Não entre logo no primeiro, percorra a rua para depois decidir. Não usamos taxi nem as motos na cidade, sempre fizemos caminhadas.

Nosso sétimo dia de viagem será de apenas 100 km, nos deslocando até a capital Santiago.  Rodovia toda dupla e de excelente qualidade, como todas no Chile, mas cuidado com os radares móveis de velocidade máxima de 120 km/h.

Em Santiago ficamos 2 dias e duas noites, hospedados no Ibis da Rodoviária que é logo na entrada da cidade.  Era mais em conta e o mais fácil de acesso uma vez que Santiago tem um transito caótico.  Mas se quiser uma região melhor se hospede na região da Providencia. Não deixe de visitar o Mercado Municipal e a Igreja Matriz, ambos no centro da cidade. Visitar as vinícolas também é quase que obrigatório.

No dia seguinte subimos de moto até o Valle Nevado.  Simplesmente espetacular, mesmo não sendo época de neve, aliás, se fosse não daria para ir de moto.

É uma subida até 3 mil metros de altura, através de centenas de curvas. Mesmo o resort estando fechado, o lugar é aberto para visitação.

Descansados, agora é hora de começarmos a subir em direção ao Deserto. Nosso destino Copiápo, sendo percorridos 800 km naquele dia através agora da Ruta 5.  O trajeto também muito bonito, feito na maioria na beira do litoral, passando por La Serena, uma bela cidade.

Copiapó é uma cidade cuja sobrevivência depende das minas e já fica em meio ao Deserto, aliás, a cidade é a Capital da Província do Atacama. São poucas opções de hotéis.  Pegue o que encontrar disponível e não espere luxo.  Para comer existem boas opções.  Aliás, vale o registro que nas estradas do Chile os postos possuem ótima estrutura e até wifi de graça.

Mas aqui uma parada para alerta-los que começam os trechos mais longos sem postos de combustível. Antes de chegar a Vallenar, pequeno município na Ruta 5, o ultimo posto fica a uns 150 km dessa cidade.  Então não abastecer significa ficar sem gasolina na estrada.

Nosso 10º dia de viagem começa bem cedo, saímos agora em meio a uma forte neblina no Deserto, quase não se via nada, mas ao mesmo tempo isso nos propiciou uma imagem diferente do deserto, aliás, a paisagem muito nesse trajeto, porque a terra e a areia marrom do deserto se transforma em uma região com mais pedras, mas também desértica. Nesse dia serão 574 km.

Novamente seguimos um bom trecho via litoral até Chanaral.  Aqui novamente atenção com combustível. Existe um trecho de 200 km antes de chegar a Antofagasta, que não há postos.  Nem água se encontra para comprar, então não se esqueça de sempre carregar uma garrafa de água por segurança.

Na Ruta 5, a uns 70 km de Antofagasta encontra-se a famosa Mão do Deserto. Muito fácil de achar, fica a beira da rodovia. Parada obrigatória.

Aqui é um lugar que emociona chegar, porque é a “Meca do Motociclista” da América do Sul, o lugar a se chegar, o lugar ser vencido o percurso. Uma opção mais curta para se chegar a esse destino é vindo diretamente por San Pedro do Atacama, conforme fizemos em 2010.  Veja matéria aqui.

Optamos em dormir em Antofagasta, cidade grande e com ótima estrutura, contando com concessionarias de varias marcas de moto, inclusive BMW. Aqui faremos a primeira troca de óleo das motos na viagem. Foram mais ou menos 4.700 km até esse trecho, considerando a saída de Curitiba.

Mas atenção, como o nosso dinheiro valendo tão pouco, tudo é muito caro e hotéis precisam ser reservados com antecedência.  Devido a grande quantidade de empresas mineradoras na região, Antofagasta tem grandes e ótimos hotéis, mas estavam e vivem todos cheios. O negocio foi pegar uma pensãozinha muito ruim porque era o que tinha para o momento. No entanto era limpinha.

No dia seguinte saímos em direção a San Pedro do Atacama. Serão apenas 315 km, percorridos todos em meio ao deserto e tendo apenas Calama como cidade apoio no meio do caminho.

O trajeto tem a beleza do Deserto, ou seja, não espere encontrar nada a se ver, há não ser a paisagem vazia e bucólica do deserto, que no meu ver é uma das mais belas que o ser humano pode desfrutar.

Em San Pedro ficaremos por 3 noites e lá visitamos o Gêiser e o Vale da Lua.  Há vários passeios, mas esses dois são “obrigatórios”.

San Pedro tem sua beleza particular. Parece uma cidade cenográfica.  Por fora tudo rustico, sem prédios, apenas casas e muitas pousadas e restaurantes feitos com paredes de barro.  Por dentro vários locais, principalmente restaurantes, com luxo e sofisticação.

Mas a maioria dos lugares é muito simples, principalmente os hotéis. Tire pelos menos uns 3 dias nessa cidade, porque vale a pena, e todas as pessoas do mundo parecem estar lá, uma vez que você encontra muitas línguas sendo faladas pelas ruas.

Recomendo muito ficar no Hotel Corvatsch.  O mesmo pertence a uma Brasileira e seu marido Chileno.  Você ira encontrar muitos motociclistas brasileiros por lá.  Eles são pessoas extremamente confiáveis e que apoiam a todos com dificuldades na região.

Um amigo recentemente se acidentou no deserto e se não fosse eles o mesmo não teria conseguido sobreviver.  Também recentemente um grupo de motociclistas ficou preso na neve em meio ao deserto em pleno mês de fevereiro e eles resgataram o grupo. Além de tudo isso, eles ainda possuem toda estrutura de ônibus e uma agencia de turismo para te levar a diversos passeios pela região.

Passados então alguns dias em San Pedro, partimos para o meio do Deserto do Atacama através da Ruta 27.  Serão 640 km até Salta na Argentina, mas primeiro iremos atravessar 160 km de deserto até a fronteira com a Argentina, passando pelo Passo de Jama.  Nesse trecho pegamos -9 graus aos 4.800 metros de altura as 9 horas da manha.  Isso mesmo, nove graus negativos.  Parece que a mão ira literalmente quebrar de quase congelada que ficou. De nada adiantou o aquecedor de manopla e uma luva especial de inverno. Mas como o trajeto é rápido, logo a temperatura melhora e a zero grau já é possível suportar bem.  Nessa região ao longo do dia quando o deserto aquece, há muitas rajadas de vento que se não atento podem lhe derrubar ou tirar da estrada. Bom ficar alerta.

A paisagem desértica é a mais bela possível.  Não adianta lhe explicar, você precisa ir até lá para entender. E é claro, em uma moto, porque de carro jamais terá a mesma sensação.  Se acha que é exagero, qual seria a explicação de tantos motociclistas viajarem para essa região?

Em Jama fizemos a aduana, tanto a saída do Chile como a entrada na Argentina. Assim não é necessário fazer a saída na aduana que fica dentro de San Pedro.  Aquela é usada apenas para quem vai pelo Paso de Sico

Se um dia fizer esse trecho ao contrario, tome cuidado com os horários. Acabamos ficando muitas horas pelo caminho tirando fotos de lugares como os Caracoles Argentinos em meio as Cordilheiras e o Grande Salar, lugares esses de parada obrigatória.  E com isso o tempo passa.  Tem também a questão da altitude, que acaba atingindo muita gente com dores de cabeça e o cansaço tendo a sensação de falta de ar. Veja essa outra matéria sobre esse tema.

Se você ficar muito tempo na estrada, corre o risco de passar pelo deserto já a noite e isso seria quase que suicídio devido ao frio e essas outras condições. Não é incomum acontecer de motociclistas terem hipotermia nesse trajeto.

Então se prepare com uma roupa especial para o trecho, mesmo que seja verão.

Também cuide do combustível.  Entre San Pedro e Jama são 160 km sem postos.  Depois são mais 122 até Susques onde nem sempre o posto tem combustível.  O próximo posto depois de Susques será somente em Pucara a 160 km que é inclusive um pouco fora da rota que vai a Salta.  Então se a sua moto não tem autonomia, melhor levar reserva. Mas se encontrar gasolina em Jama e em Susques, tranquilamente ira conseguir abastecer no próximo posto na Ruta 9 em direção a San Salvador de Jujuy

Em Salta Argentina ficamos duas noites.  Vale a pena tirar um dia para conhecer a cidade, passear de bonde e tomar umas cervejas em dos diversos restaurantes que ficam na praça central.  A cidade conta com recursos e diversos atrativos. Tem até uma rua cheia de lojas com acessórios e peças para motos.

Agora é hora de fazer o trecho “mais chato”, serão quase 900 km até Corrientes, sendo desses, 500 km de uma única reta.  Como é fim de viajem os pneus acabam ficando literalmente quadrados.

Passando por Roque San Penha, um pouco antes de Corrientes, também tome cuidado com os avisos de “proibido circular de moto pela rodovia”.  Passe pela rua lateral, senão ocorre a mesma coisa que em Corrientes, conforme comentei no inicio.

Ultimo dia dentro da Argentina, serão então mais 650 km até Puerto Iguazu e Foz do Iguaçu. Existe a opção de cortar por dentro do Paraguai, mas particularmente não gosto de fazê-lo devido ao risco de encontrar mais um guarda espertinho.

Se o fiz não deixe de dar entrada no veiculo. Algumas vezes lhe instruem dizendo não precisar fazer. Papo furado, porque na saída vão lhe cobrar uma multa por não ter dado entrada.

Pela Argentina não acontece isso, então por isso minha escolha em fazê-lo dessa forma.

Em Foz do Iguaçu, completamos então quase 7 mil km desde a nossa saída em 18 dias de viagem. Bastante cansados, ficamos então uns 2 dias por lá descansando e fazendo algumas compras. Depois cada integrante tomou o seu destino para casa.

Os amigos Paulo Rocha, Clayton e Mariane seguindo mais 1.400 km até Cuiabá e nós mais 650 km até Curitiba.

 

Nossa viagem assim se encerra, graças a Deus sem nenhum tipo de problema conosco ou com as motos. Mais um sonho realizado e mais uma viagem inesquecível.

 

Alcioni Marcio Fritz

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