Viajando de moto pela Bolívia

Por muitos anos tive um “pré-conceito” errado sobre a Bolívia.

Em outras oportunidades que tive de conhecer esse país acabei declinando e optando até por trajetos mais longos, como exemplo a primeira viagem feita ao Peru em 2012, que seguimos via o Acre.

 

Lembro-me de muitos colegas perguntando sobre esse país ou comentando sobre a possibilidade de fazer uma viagem de moto pelo mesmo e em todas às vezes, mesmo não conhecendo, sempre desestimulei a fazê-lo.  E porque eu fazia isso?

A resposta é simples, porque tudo que chegava de informações sobre a Bolívia eram noticias ruins e desanimadoras, como alto índice de assaltos, estradas precárias, alimentação com pouca higiene, alto índice de acidentes, dificuldades para abastecer, enfim, nada de noticias que pudessem motivar a conhecer esse país. Para ajudar, a politica naquele país também não andavam nada bem.

 

Então depois de ver algumas histórias na internet e colegas mais próximos fazerem viagens relativamente tranquilas, resolvi fazer a mesma coisa e conhecer pessoalmente e de perto o que era a Bolívia.

Hoje vejo esse país de uma forma totalmente diferente e agradeço a Deus por ter me dado coragem para quebrar esse paradigma. A partir de agora mudo meu discurso e sem nenhum tipo de tabu passo a indicar a Bolívia como uma oportunidade de todos visitarem.

 

Mas você esta me dizendo que a Bolívia não tem nenhum tipo de problema e que tudo que falam é folclore?

Longe disso.  Sim esse país tem seus problemas e não são poucos.

Mas ai lhe pergunto: E o Brasil também não tem?

Enfim, tudo depende como você os vê.

 

Àqueles que estão acostumados aos grandes centros e que nunca tiveram a oportunidade de conhecer o “verdadeiro Brasil” de estrutura precária e acredite, a maior parte do Brasil é assim, esses com certeza terão um impacto ao chegar à Bolívia, principalmente se entrarem por meio terrestre através das fronteiras Brasileiras, onde nossas alfândegas são um total descaso, sem manutenção e limpeza. Um verdadeiro desrespeito com os usuários e funcionários que lá trabalham. Aqui até abro um parênteses, porque vendo a estrutura das nossas alfandegas, começo a entender porque algum dos funcionários públicos tem tanta “má vontade” e abusam da grosseria. É desanimador ver o estado como elas estão.

Também não estou dizendo que as alfandegas Bolivianas são exemplos de beleza, elas também tem suas precariedades, mas sem duvida são muito mais ágeis.

 

Mas voltando a estrutura da Bolívia, ao vencer a passagem pela fronteira você começa a ver um país cheio de belezas naturais, que de tão bonitas compensam os problemas de estrutura.

Podemos dizer que viajar para a Bolívia ainda é uma viagem de aventura?

Sim, tem seu grau de aventura e requer muito planejamento, inclusive para evitar transtornos com abastecimento e hotelaria. Mas se você fizer isso de forma estruturada, com certeza você poderá fazer uma super viagem, onde ira diminuir muito os problemas de abastecimento, ira se hospedar muito bem, degustara excelentes pratos da cozinha internacional e ira conhecer paisagens de literalmente tirar o folego.  Eu diria a vocês que uma das estradas mais lindas que já conheci foi a Ruta 3 na Bolívia, no trecho que liga La Paz a Coróico, um trajeto de pouco mais de 120 km, onde ao final dele você poderá optar em retornar pela mesma estrada ou voltar pela famosa “Ruta de la Muerte”.

Não há como descrever, apenas pilotando uma moto por lá você ira descobrir o que estou lhe dizendo. Se for em época em que as montanhas tenham gelo, então se sentira andando pelos “Alpes Suíços”.

 

Como disse mais acima, nem tudo são flores. Hoje a Bolívia tem muitas rodovias asfaltas e você já corta todo o país desde a fronteira com Corumbá até a fronteira com o Peru pelo Lago Titicaca com estradas pavimentadas.  Há problemas no trecho entre La Paz à Cochabamba, mas não por descaso na manutenção, mas sim pelo numero muito grande de desmoronamentos e com isso abre-se muitas crateras que levam o asfalto.  Mas as equipes de manutenção ficam em cima tentando contornar os problemas.  Lembro que todo o trecho é feito pelas Cordilheiras, chegando a altitudes superiores a 4 mil metros. Aliás, depois de Santa Cruz de La Sierra se prepare, porque ira andar somente a esse nível de altitude, o que poderá ser um problema às pessoas com maior sensibilidade ao “Mal das Montanhas”. Veja mais sobre isso nessa matéria.

 

Quanto à alimentação, todas as noites quando estávamos já hospedados nas maiores cidades fazíamos ótimas refeições, com pratos muito saborosos, bem preparados, com higiene e não tivemos nenhuma indisposição.  No entanto durante o dia, optamos em não fazer refeições em restaurantes à beira da estrada ou nos pequenos municípios. Primeiro porque quase não há opções e segundo porque realmente os poucos locais que avistamos não eram bem apresentáveis. Durante o dia nos alimentávamos com produtos industrializados e embalados e bebíamos água mineral ou refrigerante.  Em resumo, na estrada e em pequenas cidades evite alimentação preparada ou in-natura e nas grandes cidades aproveite para se alimentar melhor, porque ai encontra várias opções. Se você acha isso estranho, saiba que no interior do Brasil é exatamente assim.

 

A Capital La Paz é realmente muito feia, a visão da chegada é assustador, porque você vê um buraco com mais de 3 milhões de habitantes, onde os prédios são praticamente todos feitos à base de tijolo a vista sem nenhum tipo de acabamento.  Mas entrando nela a minha opinião foi mudando, porque encontramos muitas atrações e lugares a serem visitados. A hospedagem foi feita um hotel muito legal, com ótimo custo benefício e um restaurante com serviço internacional.

 

O transito é caótico nas grandes cidades, por que não há estrutura de transporte publico, tudo é feito por vans e taxis particulares, então precisa ter paciência.

Ainda sobre o transito, a maior recomendação que eu faria é que os Brasileiros não pilotem no Bolívia como o faz no Brasil.

É preciso ter muito cuidado, não só pela imperícia dos demais motoristas, mas pelos “exageros” típicos dos motociclistas brasileiros, que acham que podem fazer qualquer coisa com as suas motos potentes.

Na Bolívia se pilota quase todo tempo em altitudes superiores a 4 mil metros acima do nível do mar. Nessa altura os veículos perdem muita potencia.

Considerem ainda que você esta viajando com a moto pesada. Se tiver com garupa mais atenção ainda. Nas cordilheiras há pouco espaço e locais para ultrapassar os grandes caminhões que por lá circulam.  Então não será surpresa você passar alguns sustos tentando fazer uma ultrapassagem e a moto não responder com o mesmo torque que faria em baixas altitudes.

Adicione a isso o fator que na altitude você se cansa muito mais facilmente, naturalmente perdendo os reflexos.

Essa junção de fatores explica o porquê ocorrem tantos acidentes com Brasileiros pilotando na Bolívia.

Então a dica é simples, pilote devagar, com consciência e muito atento.

O abastecimento é um dos maiores dos problemas, pelo menos foi isso que detectei na minha viagem. Em nenhum momento ficamos sem gasolina, mesmo as motos de autonomia de 300 km com um tanque.  Mas tivemos que procurar por combustível porque não são todos os posto que abastecem estrangeiros. A culpa não é das pessoas, mas do Governo que impôs uma politica de cobrar impostos maiores sobre o combustível vendido a estrangeiros. Com isso os postos precisam se preparar e ter um sistema apto a isso ou então preencher uma “papelada” sem fim.  Então quem não tem sistema opta em simplesmente não vender. Muitos viajantes usam artifícios de parar fora do posto, pegar um galão e pedir para locais comprarem a gasolina por fora, pagando então o mesmo preço das bombas. Em nenhum momento fizemos isso.  Sempre abastecemos diretamente das bombas. Pagamos sim bem mais caro, porque abastecíamos apenas em postos com sistema de vendas a estrangeiros.  Imagine um grupo de 4 motos tendo que ficar barganhando abastecimento e ainda por cima fazendo isso com galões de 5 litros! Seria um tremendo atraso na viagem, então optamos em não proceder dessa forma, mas é uma opção mais em conta caso esteja a fim de economizar.

 

De todos os dias em que ficamos na Bolívia, o único lugar que realmente ficamos preocupados foi na travessia da fronteira com o Peru em um lugar chamado Desaguadeiro, localizado na beira do Lago Titicaca.  Por um atraso provocado pela quebra de uma das motos, acabamos tendo que pilotar a noite entre La Paz à fronteira. Os postos de gasolina estavam fechados e chegando à aduana a mesma já estava fechada. O lado Boliviano da fronteira é muito precário, sem nenhum tipo de estrutura hoteleira e de alimentação.  Tivemos que dormir em uma hospedaria muito ruim, tendo que praticamente esconder as motos dentro de um estreito corredor, de forma a não deixar a vista da rua e consequentemente não correr o risco de ficar sem elas. Aliás, fomos alertados pelo porteiro do hotel que isso iria ocorrer se deixássemos as motos na rua. Então é preciso se programar e não passar muito tarde nesse local.

 

Enfim pessoal, essas são as minhas impressões sobre a Bolívia. Sim há problemas, sim requer cuidados com segurança, mas também tem muitas coisas bonitas para se ver e conhecer. Todo o nosso grupo curtiu, inclusive as três mulheres que estavam no grupo.

 

Qual foi o segredo? Entendo que o planejamento e a organização da viagem e principalmente porque soubemos colocar na balança e equilibrar as coisas boas com as ruins.

 

Mas por favor, não tome isso como regra.  Pode ser que você conheça alguém que tenha ido para lá e tenha voltado odiando o país, ou pode ser que até você mesmo não vá gostar.  Como disse acima, tudo é uma questão de opinião e visões diferentes.

 

Sucesso e boa viagem a todos.

 

Clique aqui e veja como foi dia a dia nossa viagem pela Bolívia e outros países da América do Sul, ou acesse o canal de Youtube para ver assistir o filme completo.

Alcioni Marcio Fritz

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